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A nossa verdadeira riqueza

Quarta-feira, 13.01.10

 

Continuando esta análise do país e de como recuperar a nossa identidade e dignidade:

Como referi, a primeira qualidade de ser rico é a autonomia: poder organizar as nossas vidas.

Quando me refiro aqui a autonomia refiro-me essencialmente à autonomia dos cidadãos, dentro do possível, e à autonomia da economia, a que cria riqueza. Que neste momento revela poucos sinais de vida.

Sem dúvida que negociámos parte da nossa autonomia, a começar pela económica, com a integração europeia. Mas há inegáveis vantagens nessa interdependência. Não apenas económicas (se houver inteligência para isso), mas sobretudo políticas.

 

A nossa verdadeira riqueza está na capacidade de criar e expandir. E noutra capacidade, tantas vezes esquecida: capacidade de empatia, de relacionamentos saudáveis e estáveis, de relações de confiança.

Aplicada ao país, a confiança adquire uma outra dimensão: sem relações de confiança, de expectativas concretizáveis, de lealdade, de equilíbrio,  a economia estará seriamente comprometida. A base da economia saudável está na coesão social, na confiança.

Confiança nas instituições, nas empresas, nos elementos-chave de uma sociedade. Sem essa condição básica não há economia que sobreviva.

 

E sobretudo a base, o essencial: a energia vital. O brilhozinho nos olhos, o entusiasmo, I'm alive. Ontem, no Boston Legal, a personagem Alan Shore ficou arrumado quando uma ex-namorada por ele abandonada, lhe diz, cheia de ressentimento: Os homens quando envelhecem perdem a paixão... Os teus olhos estão mortiços... Alan Shore só recupera desta frase mortífera quando, em conversa com o amigo, Denny Crane, que também com ele partilha o seu maior pavor (vejam a série se quiserem saber) o ouve dizer com amizade: Ela ainda não te viu em tribunal, aí tu transformas-te! Não, tu não perdeste a paixão! E, de facto, o nosso Alan Shore transfigura-se, é com verdadeira paixão que defende a queixosa e será com tristeza que se despede no final da ex-namorada e é tristeza que verá nos seus olhos também, e já não ressentimento.

 

Isto para dizer o quê? Que além da confiança mútua, nos grupos, nas comunidades, nas instituições, a nossa maior riqueza é a paixão, essa energia vital que nos move, que nos anima. É, por isso, muito preocupante, ler em jornais ou em blogues sobre a geração perdida. Perdida? Não podemos aceitar tal hipótese, que o nosso maior trunfo, os recursos humanos, as pessoas, não consigam vislumbrar uma vida à medida dos seus investimentos pessoais ou dos seus sonhos. Que tenham de encarar um dia a dia medíocre e sem perspectivas. Se as gerações actualmente no poder estão a empatar-lhes a vida, isso terá de ser encarado sem rodeios: o que se passou aqui e o que se passa para isto acontecer?

A minha perspectiva é um pouco polémica, mas terei a oportunidade de verificar se, na prática, se aproxima ou não da nossa realidade. Procurarei, em próximos posts, analisar a situação das gerações dos 26-35 e dos 36-45 anos. Conto com o feedback de todos os que se interessam pelo assunto, claro!, a começar pelos próprios.

 

 

Leitura relacionada: De Sobre o Tempo que Passa, um post sobre o desafio de "viver em comum" para além da aventura individual: Sete pedacinhos de mais além em domingo de chuva.

 

E ainda: Como lixar o Cidadão Comum, e o país, legalmente, isto é, com as leis que temos - 3 e Os cidadãos enquanto contribuintes, consumidores e eleitores. E a tag novas gerações igualmente no Vozes Dissonantes.

 

E ainda: Do Portugal Contemporâneo, Perdendo o sonho e Empregos mal remunerados; e do Minoria Ruidosa, Da geração rasca à geração perdida.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:47


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